terça-feira, 13 de agosto de 2013

A História de Um Pioneiro de Três de Maio


Marino Geraldi: Um Pioneiro em Três de Maio

Introdução

Até o presente momento a história dos primórdios de Três de Maio, não registrava a presença do imigrante italiano Marino Geraldi (em alguns documentos também grafado como Marino Girardi e cuja grafia correta do italiano é Ghiraldo) e sua esposa Joaquina Filipina Wiebbiling. No ano de 2013 completou cem anos que este pioneiro e sua família fixaram residência próximo onde hoje se localiza a sede da cidade. Os filhos do casal, todos já falecidos e que também foram pioneiros em Três de Maio sempre comentaram esta lacuna. Existem ainda mais de duas dezenas de netos do casal Geraldi residindo a grande maioria em Porto Alegre, dentre os quais o mais velho com 91  anos é o Médico e Coronel aposentado do exército Dr. Severino Fim, que felizmente se mantém com muito boa memória e ajudou a confirmar muitos fatos e introduzir novos detalhes da presença deste pioneiro no início da colonização. Outro neto com noventa anos de idade é o coronel PM, Osvaldo Geraldi Vanin (primeiro tresmaiense a chegar ao posto de coronel PM) que também reside em Porto Alegre e que ao longo de sua vida arquivou documentos e fotos da família e de sua trajetória pessoal que estão reunidos em material gráfico por ele intitulado "Alfarrábios da Família Vanin".  A neta mais velha, Alzira Vanin Trage, sempre residiu em Três de Maio e faleceu em 2012 com 89 anos. Era uma grande contadora de histórias. Alzira descrevia os personagens com precisão. Narrava ainda com emoção fatos distantes do passado e juntamente com os primos descentes de Eulália Geraldi Fin, até seus últimos dias, reverenciou as histórias de cada personagem da família. Esta neta ao ficar órfã de pai, aos seis anos e meio de idade e sendo a neta mais velha, durante alguns anos, morou junto com o avô e naquele tempo não existia rádio, televisão, computador ou outra forma de distrair-se, como se faz nos dias atuais. O que mais se fazia nas horas de folga era conversar e dessas longas conversas com o avô ela se inteirou de muitos detalhes da vida dele desde os tempos de menino na Itália e toda a trajetória no Brasil. Alzira contou e recontou estas histórias para os filhos. Outro neto do pioneiro, Orlando Giraldi Vanin,  ex-procurador Geral do Estado do Rio Grande do Sul e juiz, ex-presidente do Tribunal da Justiça Militar do RS, em vários de seus discursos, publicados ou que constam nos arquivos pessoais do autor, faz referência a família em Três de Maio. Todos são unânimes em afirmar a data de chagada do avô Marino a Três de Maio: Ano de 1913.

O bisneto de Marino, Orlando Vanin Trage, cirurgião-dentista em Alegria, filho de Alzira, vem coletando informações ao longo dos últimos dez anos para escrever a história da família até então só contada de boca a ouvido de geração em geração. Para isto passou a entrevistar os parentes e pessoas idosas que pudessem reforçar os detalhes já conhecidos ou até mesmo trazer fatos novos.

Foi vista com muita simpatia, através do jornal, a manifestação da vontade do Dr. João Sabino Bonfada de escrever um livro sobre a história de Três de Maio. Para grata surpresa a família Trage recebeu a visita do autor do projeto da obra que relatou a intensão de fazer uma pesquisa criteriosa e trazer a luz da forma mais correta possível os detalhes da história deste município gaúcho da região do Grande Santa Rosa. Veio em busca de informações e de documentos que pudessem comprovar de forma segura os fatos que pretende narrar. Alguns documentos já estavam em mãos, mas então a procura por novos documentos foi retomada com mais entusiasmo. Através da prima, também bisneta de Marino, Cláudia Fim, descobriu-se um achado muito importante: Um tubo metálico, provavelmente com mais de 80 anos e que continha em seu interior, dois títulos de aquisição das duas colônias de terras da colonização adquiridas por Marino Geraldi. O primeiro deles é do lote nº 02, de 1918, assinado pelo então presidente do Estado do Rio Grande do Sul Dr. Borges de Medeiros (Anexos 01 e 02). O segundo título é de 1924 do lote nº 04 (Anexos 03 e 04). Os dois documentos estavam muito deteriorados pela má conservação e pelo tempo, mas puderam ser parcialmente reconstituídos e o conteúdo conhecido. Junto a eles também se encontravam as respectivas certidões de registro das áreas feitas no registro de imóveis de Santa Rosa e Santo Ângelo. Marino também, adquiriu mais duas colônias de terra em nome dos filhos maiores de idade na época: Eulália e Luís. Do título da colônia de Eulália, também de 1918, o lote nº 06 foi obtida uma cópia, juntamente com a cópia do registro de imóveis de Santa Rosa (Anexos 06 e 07). Os documentos antigos foram localizados em busca feita no porão da casa onde residiu a filha mais velha de Marino, Eulália Geraldi Fin, nascida em 1900 e falecida em 1979. A partir destes documentos, das entrevistas e da história oral da família contada pelos descendentes mais antigos que ainda conheceram o casal de pioneiros foi possível, portanto, realizar uma reconstrução dos fatos marcantes na vida e do cotidiano deste casal com seus nove filhos em relação a acontecimentos, locais e épocas de forma bastante precisas, registrando agora tudo escrito. Através da leitura também se pode tomar conhecimento de muitos detalhes do cotidiano da população daquela época, seus hábitos, seus costumes.


A Chegada em Três de Maio

O imigrante italiano, Marino Geraldi, como se auto nominava, casado com Joaquina Filipina Wiebbiling chegou ao hoje conhecido município de Três de Maio, no longínquo ano de 1913, vindo de Ijuí, utilizando como meio de transporte uma carroça, onde eram transportadas as ferramentas como machados, foices, facões, enxadas, serrotes, as vestimentas, roupas de cama e alguns utensílios domésticos. Na carroça conduzida por Joaquina, viajaram também os filhos pequenos (Safério, Júlia e Bernardo). Os filhos um pouco mais crescidos: Luiz, Eulália, e Ancelmo vieram a pé acompanhando a carroça. A filha mais velha Eulália, então com 13 anos, além de caminhar, a maior parte do tempo carregava no colo o irmãozinho menor, Xavier. Foi possível vir com a carroça somente até local hoje denominado Esquina Schultz que se localiza um pouco adiante da cidade de Independência. A partir dali tiveram que utilizar-se de “cargueiros” (cavalos equipados para levar cargas que eram, geralmente, colocadas dentro de vários sacos ou cestos). A carga era distribuída sobre os dois flancos do lombo do animal, tentando-se com isso equilibrar o peso da carga. A carroça foi deixada ali. Assim, Marino foi montado, cortando com o facão alguns galhos que aqui e ali já atrapalhavam a passagem e puxando mais três cavalos carregados com vários sacos e alguns cestos, fazendo a frente na picada estreita sendo seguido por Joaquina e as crianças que vinham caminhando e carregando também algumas coisas menores, cujos pesos a idade permitia suportar. Em Três de Maio nasceram mais duas filhas: Glória e Carlota.

O destino planejado pelo casal ao sair de Tubarão em Santa Catarina, onde vendera a propriedade, não era vir para esta região. Ocorreu, porém, que da venda da propriedade eles receberam apenas uma parte do valor, ficando o comprador no compromisso de logo lhes enviar o dinheiro para Cruz Alta, através do Banco existente na época. Segundo o combinado o dinheiro já deveria estar no banco quando eles chegassem a Cruz Alta, uma vez que passariam algum tempo em Não Me Toque na casa de conhecidos, demorando tempo suficiente para o envio do dinheiro, mas isto não aconteceu e o tempo foi passando... Marino então escreveu uma carta para os parentes em Tubarão para que fizessem contato com a pessoa que lhe devia, porém naquela época tudo demorava semanas e meses. Marino já havia acertado a compra de terras em Catuípe, próximo a Ijuí com a família Foletto (alguns descentes dessa família, depois também vieram residir em Três de Maio). A família Foletto esperou meses para concretizar o negócio com Marino que então sem recursos financeiros para comprar imediatamente as terras planejadas e com a informação de que se planejava abrir uma nova área de colonização, decidiu conhecer outras paragens e acompanhou um morador de Catuípe que já conhecia o lugar (na época Santa Rosa Buricá) e estava com viagem marcada para a região.  Marino comprou um cavalo e então os dois pegaram a estrada, sendo que andaram durante alguns dias. Tendo chegado onde hoje se situa a cidade de Três de Maio, o imigrante italiano gostou do lugar. Escolheu uma grande baixada, pois acreditou que ali teria boas terras de vargem. Pela experiência que teve em Tubarão, onde as pessoas contavam que já plantavam terras assim a mais de cem anos e que este tipo de solo nunca se esgotava. Concluiu que ali estava um bom lugar para se estabelecer. Exigiria mais trabalho e sacrifício, mas quase sem custo em dinheiro com as terras, uma vez que tendo encontrado uma área já parcialmente aberta e uma choupana ocupadas por José Bernando (um índio aculturado), acertou com este que voltaria com os demais familiares. O índio então lhe transferiria a posse das pequenas lavouras, alguns animais e a choupana mediante o pagamento de uma modestíssima quantia em dinheiro. Voltou a Cruz Alta, pegou a família e então vieram todos de trem até Ijuí por um trecho da estrada de ferro que havia sido a poucos anos construído desde Cruz Alta. Ali comprou a carroça, os animais e os utensílios mais necessários para a viagem e para se estabelecer na nova morada. Os caminhos que levavam a lugares pequenos e mais distantes eram picadas abertas na mata fechada e cuja largura não permitia passar dois ao mesmo tempo, por isto quando havia o encontro de alguém em sentido contrário, um dos dois tinha que conseguir sair do caminho. A maioria dos rios era atravessada em “passos” localizados em locais em que o nível das águas era mais raso com o leito do rio razoavelmente plano e as barrancas da margem baixas. Se chovesse muito, às vezes, o rio não dava passagem. Nesses locais dos “passos” se aproveitava para matar a sede dos animais e das pessoas e pegar uma reserva de água para a caminhada do dia. O pouso era feito sempre numa parada ao fim da tarde, junto a locais as margens da estrada que ofereciam alguma estrutura de apoio logístico como um teto, água para beber, comida para as pessoas e trato para os animais, ou alguma moradia cujos proprietários eram pessoas hospitaleiras que davam de bom grado apoio aos viajantes, geralmente sem cobrar quase nada. Nestes casos, era muito raro que os viajantes dormissem bem confortáveis em uma cama. Geralmente dormiam no chão mesmo, sobre alguma coisa que amaciasse um pouco a superfície dura do solo. Os transeuntes surpreendidos pela noite e que não sabiam o que iriam encontrar no caminho a frente, improvisavam um pouso ali  mesmo no local em que se encontravam. Em lugares mais retirados, na época, as pessoas ficavam felizes de ver outras pessoas chegando. Todos desejavam que a população dos lugares interioranos crescesse, pois o crescimento em geral traria o progresso.  A viagem continuava assim que a claridade do nascer do dia permitisse enxergar o caminho. Quanto mais se afastavam de Ijuí, menos moradias e pessoas iam encontrando. No trecho final da viagem (Esquina Schultz em Idependência) não havia quase nada pelo caminho em 1913, (até mesmo Santa Rosa recém se iniciava) e nem a carroça passava.

Não surpreende o fato de Marino e Joaquina, embora já sendo na época pessoas entrando na meia idade, frente a dificuldade da falta do dinheiro restante da venda das terras, terem optado por uma região quase inexplorada ainda e remota como era a região de Três de Maio na época , onde o dinheiro que já tinham em mão seria suficiente. Marino era imigrante e Joaquina descente de imigrantes, portanto pessoas com espírito destemido, ousadas, desprendidas, a quem o desconhecido, a dificuldade, o trabalho e dá para dizer mesmo, o sacrifício já não assustavam. Quer decisão mais ousada e corajosa do que deixar parentes, amigos, abandonar tudo no velho mundo e vir para uma terra desconhecida?

Segundo Marino, sua família veio para o Brasil, pois passavam inúmeras dificuldades na Itália. Eram muito pobres. Segundo contava existia muita miséria e “banditismo” na província de Verona, onde moravam. O pai de Marino, Santo Geraldi, ficara órfão e fora criado por um tio, cuja esposa frequentemente recomendava ao marido que o fizesse trabalhar bastante, pois havia comido um ovo e três pedaços de polenta naquele dia, quando na verdade havia passado até mesmo fome, só comendo alguma fruta que encontrava. Isto dá uma ideia da vida difícil no velho continente naquela época. Isto sem contar que passavam frio no inverno e muitas vezes dormiam junto com os animais para se aquecerem mutuamente.

Ao chegar ao Brasil, vindos da Itália, Marino, juntamente com o pai, e os irmãos estabelecerem-se em Santa Catarina, tendo na ocasião, adentrados na mata virgem. A esposa Joaquina, também já vivera situação semelhante quando criança, junto com a família paterna e a situação não lhe era estranha. Era uma mulher de muita coragem, cujo pai e irmãos realizavam caçadas de animais ferozes, coisa comum naquele tempo, e se a mulher não tinha medo, do homem não se esperava outra coisa a não ser uma atitude corajosa. Os filhos eram animados a todo o momento a seguir adiante em busca de boas terras e esperança de dias melhores.

Segundo relato dos familiares, Marino, esposa e filhos, foram os primeiros imigrantes e descentes de imigrantes a morar próximos ao local onde hoje se situa a cidade de Três de Maio. Naquela época o lugar era habitado apenas por índios como José Bernardo e raríssimas pessoas nativas do Rio Grande do Sul, de origem portuguesa ou afro descentes, miscigenados com índios, os assim chamados caboclos. Foram muito bem recebidos pelo índio que os aguardava e vendeu a Marino e sua família a posse da terra, a choupana e uns poucos animais. O índio pensava que já estava muito próximo da civilização e decidiu abrir nova área em local da mata mais distante, aonde a civilização branca não chegasse tão rápido. Segundo dizem teria ido para o local de Horizontina, hoje chamado de Caneleira. Ele sabia que com a colonização e demarcação das áreas, os posseiros se viam obrigados a afastar-se com a chegada dos donos dos lotes. Marino o teria convidado a permanecer por perto e trabalhar com ele dizendo que um dia ali seria uma cidade.

---- Não seu Marino, agradeço seu convite! --- Teria dito José Bernardo. ---- Não gosto da cidade, pois a cidade mata e o mato cria.

  Foi uma aquisição barata e do pouco dinheiro que tinha ainda sobrou para comprar dos raríssimos vizinhos das redondezas, alguns alimentos, sementes e mais alguns animais (vacas, porcos e o meio de transporte mais útil: cavalos) e alguns utensílios domésticos adquiridos na viagem seguinte a Ijui. Ali foi estabelecida a primeira morada. O mato ao redor ia sendo vencido a custa de muito suor, machado e fogo. Dona Joaquina profunda conhecedora da vida em locais ermos do interior era uma especialista em fazer arapucas para aprisionar pássaros e alguns animais pequenos, caçar animais silvestres e encontrar no mato tudo o que pudesse ser comestível, como frutas e algumas outras plantas e ervas medicinais. Inicialmente estes conhecimentos foram muito úteis em um lugar em que existiam muito poucos recursos. O fato de o índio ter deixado um excelente “pilão”, onde já foi possível, descascar um pouco do arroz trazido e preparar canjica de milho foi uma grande bênção. Já tinham pelo menos uma vaca com leite. Muito útil também foi o pequeno mandiocal de José Bernardo. Uma alimentação bastante razoável já estava garantida. A mandioca era consumida cozida, acompanhando outros alimentos como carne de porco ou frango. A farinha de mandioca era muito fácil de fazer e também comprada baratíssima. Podia ser utilizada misturada ao feijão (revirado), consumida junto com carne, ou usada para preparar pirão, misturada ao leite fervente.  

Marino preocupou-se em descobrir o moinho mais perto para moer o milho e assim fazer a gostosa e tão útil polenta. Pelo que os descendentes contavam, as primeiras moagens ainda foram feitas em um moinho próximo a Ijui, onde o milho debulhado a mão tornava-se farinha. Aproveitando a viagem levava-se junto para vender algum produto que tinha comercialização na época, como  por exemplo o feijão.

 Durante muito tempo o correio vinha apenas até Ijuí. Era necessário ir até lá postar as cartas, receber as correspondências, fazer compras e vender os produtos levados em carroças com toldo pelos assim chamados carroceiros. As viagens a Ijuí duravam dias. Em uma destas ocasiões, Marino recebeu uma carta dizendo que o dinheiro que o comprador de Santa Catarina ficara de mandar, na verdade havia se “extraviado” e que deveria ir à agencia do Banco Nacional do Comércio em Santa Maria,  onde poderia receber o recurso restante da venda de suas terras. Na época, para poder receber o dinheiro, uma vez que não havia documentos com foto e a própria grafia dos nomes às vezes divergia em uma ou mais letras dependendo do documento, veio junto com o repasse para a agência, uma descrição detalhada do destinatário da importância, como altura, peso aproximado, cor dos cabelos, cor dos olhos, uso e corte do bigode e das costeletas, além de algumas perguntas a serem respondidas. Em Santa Maria Marino conseguiu receber o dinheiro e agora poderia comprar as terras que havia planejado. Porém, Santa Rosa crescia e Três de Maio também. A partir de 1915 e 1916, começou o fluxo de outros imigrantes para a região que se intensificou mais a partir de 1917 com a venda pelo governo do estado das colônias demarcadas. Um pequeno comércio local já começava a surgir e começaram a aparecer pessoas que realizavam a prestação de serviços especializados, como ferreiro, oleiro, alfaiates, costureiras. Aos poucos muita coisa se podia fazer em Santa Rosa, não necessitando mais ir a Ijui. O agrimensor Frederico Jorge Logemann, havia chegado a região medindo as terras e demarcando os lotes da colonização. Marino Geraldi comprou o lote número 02 da segunda seção de Santa Rosa com 21800 m², conforme título expedido em 09 de julho de 1918 pelo então presidente do estado Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros e registrado no registro de Imóveis de Santa Rosa sob número 6888 e o lote rural nº 04 que confrontava ao norte com o lote rural nº 02, portanto lotes vizinhos. Esse lote confrontava também com o “Estradão 3 de Maio – Campo”, como chamavam na época a estrada da saída de Três de Maio em direção a atual Independência. Este lote também foi adquirido do governo do estado, cujo título foi expedido em 07 de Novembro de 1924 e registrado no registro de imóveis de Santo Ângelo no livro 3-B fls 225, sob número 3.183. Segundo depoimento dos familiares Marino comprou as duas colônias acima descritas em seu próprio nome e mais duas colônias vizinhas, tendo colocado no nome dos filhos que eram maiores de idade a época: Eulália e Luís. Em 12 de junho de 1918, o então Presidente do Estado Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, assinou o Título de Propriedade do Lote Rural nº 06, com área de 25.000 m², em nome da Filha mais velha Eulália. A área descrita acima pertencente a Eulália que foi registrada no registro de imóveis de Santa Rosa somente em 5 de setembro de 1940, sob número 11465, folhas número 15 do livro nº 3-i, apontado sob número 11403, fls. 101 do livro nº 1-A. A colônia de Luís Geraldi, o outro filho, era vizinha a área de Eulália e teria sido posteriormente vendida ao Sr. Leopoldo Wolfenbit e da qual não se conseguiu documentos comprobatórios. Há essas alturas os imigrantes já chegavam em grandes levas. Eram imigrantes alemães e italianos, principalmente.

A filha Eulália casou-se na data de 15 de janeiro de 1921 com Patrício Fin. Atualmente esta área de terra que pertenceu ao pioneiro Marino Geraldi, pertence aos netos, herdeiros de Patrício Fin, (encontrado morto na estrada em Tucunduva, sob a nevasca que atingiu o estado em 21 de agosto de 1965) e Eulália Geraldi Fin, falecida em 1979. Chama a atenção o fato de que este imóvel nunca ter sido vendido, tendo mantido o Título original de 1918. Anos mais tarde, Patrício fim acabou comprando toda a área que pertenceu a Marino Geraldi. Essas terras atualmente localizam-se em frente a atual agência do INSS, a área da Coab e área próxima ao Parque de exposições Germano Dockorn, CTG Tropeiros do Buricá e próxima ao asfalto que liga Independência a Três de Maio, após o primeiro trevo de acesso a Três de Maio e o acesso a Vila São Pedro para quem vem de Independência. Nesta área localizou-se o primeiro cemitério de Três de Maio (dois ou três túmulos de adultos e algumas crianças), próximo ao lugar onde hoje se situa o trevo do Parque de Exposições Germano Dockhorn e também localizou-se a Hípica Tresmaiense, cuja pista foi cortada pela abertura da antiga “Faixa da Produção”, hoje rodovia asfaltada.

 Ao adquirir as colônias do governo Marino que sempre preferiu o diálogo e nunca teria brigado com ninguém, fez um entendimento com mais três “posseiros” que moravam nos fundos das áreas adquiridas.

---- Italiano tu vais perder teu dinheiro! --- Teria lhe dito alguém.       ----- Estas terras já tem morador. Veja lá nos fundos tem três ranchinhos de caboclos!

Marino foi conversar com eles que teriam aceitado de bom grado  a oferta e também se transferido como o índio José Bernardo para Caneleira, hoje em Horizontina.

Na mesma data do casamento da filha Eulália com Patrício, 15 de janeiro de 1921, o casal de Pioneiros Marino Geraldi e Joaquina Viebbilin, também legalizaram a situação casando-se no Civil, já no cartório do hoje município de Três de Maio. Este casamento está lavrado a folha 97 do livro B-1, sob nº 154. Ele contava com a idade de 47 anos e ela com 41 anos na data do casamento. O casamento religioso havia sido realizado em Porto Alegre na Capela São Francisco da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde Marino e Joaquina, encontraram-se pela primeira vez. Ela Joaquina, nascida em 1879 no município de Estrela no Rio Grande do Sul, filha de imigrantes Alemães, havia ficado órfão na pré-adolescência e fora “criada” no então orfanato da Santa Casa. Ele Marino, quando veio da Itália, juntamente com os pais e irmãos fez uma breve estada em Tubarão, Santa Catarina. Marino lá deixou os familiares e veio trabalhar em Porto Alegre na Santa Casa, onde conheceu a jovem Joaquina. Após o casamento o casal foi residir em Tubarão onde estavam ainda residindo os pais e os irmãos de Marino. Passados alguns anos o casal, quando a filha Julia, nascida em 1905, estava com oito anos de idade e Eulália com treze, resolveu retornar ao Rio Grande do Sul para comprar as terras da colonização vendidas pelo governo do estado. Enfrentaram durante a viagem, na época feita de navio, uma forte tempestade no mar e o navio sofreu risco de naufragar, tendo ficado a deriva, com a sirene de alarme acionada várias horas, pedindo socorro a outras embarcações. Durante a viagem um dos filhos adoeceu e Joaquina escondeu a doença da tripulação com medo de que o bebê (Xavier) viesse a falecer e pudesse ter o cadáver jogado no mar.

Após a chegada em Três de Maio, Santa Rosa crescia muito e Três de Maio também avançava. Marino havia ampliado o desmatamento das terras iniciado pelo índio e os imigrantes que iam chegando procuravam localizar-se por perto de áreas já abertas com alguma vizinhança por perto, próximas de acesso fácil a água. Marino acabou convencendo o cunhado José Benati, casado com Angela Geraldi a vir também para a região. José Benatti estabeleceu-se no local hoje conhecido como KM 13. O trabalho de derrubada de árvores foi feito a machado e custou muito esforço e suor. A cada ano a área conquistada a mata e tornada agricultável era pequena. A queimada era uma das ferramentas mais práticas para não dizer necessária mesmo para limpar uma área de mata. Os colonos já naquela época eram submetidos a uma lei ambiental e em áreas que ainda não haviam sofrido exploração industrial da madeira, só podiam desmatar metade da área e nas demais áreas já exploradas industrialmente, deviam manter 1/3 da propriedade com mata e para novas derrubadas deveriam replantar com árvores de valor industrial na mesma proporção. As matas só poderiam ser derrubadas quando o correspondente reflorestamento já estivesse com dois anos no mínimo. Não poderiam ser derrubadas as matas localizadas a cem metros de rios ou nascentes. Dá para se perceber que a preocupação das autoridades com a preservação ambiental não é de hoje. Os proprietários eram obrigados a manter a marcação dos marcos divisórios e manter a roçada da estrada ou caminho a frente do lote que ocupasse, bem como a prestação de seis dias de serviço por ano, por lote rural, para a conservação e melhoramento das estradas de rodagem a frente ou nas circunvizinhanças do lote. Também era obrigatório manter os animais domésticos dentro dos limites da propriedade, sob pena do estado fazer o cercado e cobrar a obra do proprietário (não se tem informações de que isto tenha ocorrido alguma vez na região).

 Para quem chegava era mais prático fixar-se em uma área com alguma parte já aberta, pois do contrário não havia nem como plantar umas verduras ou legumes e a primeira colheita de alguma pequena quantidade de produto demoraria meses. O lugar onde marino construiu a sua morada permanente, dentro das duas colônias que comprara, localizava-se próximo a um butiazal, um pouco abaixo da encosta onde mais tarde localizava-se o alambique da família Fin e era vizinha a área comprada em nome da Filha Eulália. Esta área começava após a área do Sr. Emílio Teche, que posteriormente doou uma pequena área para o cemitério e cuja área estendia-se até o local onde hoje é a vila São Pedro. A divisa era a antiga estrada, hoje rua que sai na avenida em frente a Agência do INSS. Durante muitos anos existiu ali na baixada (onde hoje é a Afucomaio) um Pinheiro de grande dimensão, plantado pela esposa dona Joaquina. Esta árvore tornou-se muito grande e as pessoas com mais de 40 anos hoje ainda podem lembra-se dela. A neta Alzira Geraldi Vanin quando olhava para o Pinheiro a uns trinta anos atrás dizia que ele já tinha sessenta anos, isto é a idade dela mesmo, pois segundo dizia, sua avó o plantara na mesma época em que ela, Alzira, nascera.


O Tigre Passava Por Três de Maio

Logo nos primeiros meses residindo no hoje Três de Maio, uma madrugada começou agitada. Os cães latiam e queriam abrigar-se dentro de casa, o touro bufava e cavava terra. O pouco gado que a família de Marino e Joaquina possuía havia se reunido e o touro circulava em volta. Agitação na encerra dos porcos. Dona Joaquina de espingarda em punho entrincheirada perto da janela, porta fechada, marido e filhos recolhidos dentro da choupana:

---- É o tigre que está por perto! --- Sentenciava ela.

Todo o cuidado era pouco! Ninguém fora de casa a noite! Manter o fogo bem vivo. Bem que o índio havia avisado, que havia tigres.  A história contada por José Bernardo, quando da chegada, sobre o negro que morava sozinho há alguns quilômetros dali, no interior da mata e que um dia o índio fora visitar, sendo que após encontrar o feijão queimado no fogo já apagado, fora em direção a fonte de água e encontrara o mesmo com o pescoço e parte do corpo devorados. Bem que poderia ser verdade! Se era, não houve confirmação, mas  as crianças não saiam de casa a noite nem para “mijar” (os guris faziam o pipi pelas frestas da casa mesmo).  Segundo o relato da filha Júlia, falecida em 1980, a situação repetiu-se mais vezes. Segundo Dona Joaquina, entendida de animais selvagens, a moradia da família ficava perto da rota de deslocamento de um felino que costumava passar por ali e então a bicharada doméstica pressentia e ficava agitada e reunida. Pelo que consta fora um ou outro leitão roubado da encerra, provavelmente devorado por algum animal selvagem pequeno, nunca houve outros problemas na casa do Sr. Marino, a não ser, picadas de cobras, aranhas e as raposas que atacavam as galinhas. Já o cunhado do Sr. Marino Geraldi, o Sr. José Benati, casado com uma irmã de Marino que fora morar no KM 13, a pouco residindo no lugar, foi atacado em sua propriedade por um Tigre que lhe feriu gravemente um dos braços, tendo o Sr. José Benatti sobrevivido, mas permaneceu com uma grande sequela em função da mutilação da musculatura no local atingido, durante o ataque do felino. O Sr. José Benatti morava perto de um lajeado que então ficou conhecido como: Lageado Tigre.

            Marino era um homem vaidoso e uma vez por ano ia a Porto Alegre comprar roupas, calçados e chapéus. Tinha mais vocação para o comércio e foi proprietário de um hotel que existiu nas proximidades onde hoje é o posto Latina de propriedade de Vitor Schons . Também foi proprietário da casa antiga ainda existente na esquina oposta ao colégio Dom Hermeto, hoje pertencente a família Fasolo.

            Alguns anos mais tarde, Marino resolveu ir sozinho cuidar de um “bolicho” no Km 13, próximo da casa do cunhado José Benatti. Na época a segurança das localidades ficava a cargo de uma autoridade eleita pelo povo, o Inspetor de Quarteirão que mantinha a ordem no lugar e prendia os “criminosos”. Uma noite, a loja foi invadida a força por dois homens que arrobaram a porta e assaltada. Tratava-se de dois “maus elementos” que vieram para a região. Um deles tinha o apelido de “Troncho”. Na verdade, pareceu ao Sr. Marino que a intenção dos meliantes era assassiná-lo, mas com a ajuda de Nossa Senhora, de quem era muito devoto, num momento de distração, ele conseguiu escapar pelo meio do milharal que ficava nos fundos da loja e foi socorrer-se na casa do cunhado Benatti. Com medo de que o fato se repetisse, vendeu a loja e voltou a morar na então vila de Três de Maio. Alguns meses depois “Troncho” e seu companheiro, que haviam voltado aterrorizando a região, foram mortos a bala numa espera que alguns moradores haviam organizado. Era uma terra sem lei e as pessoas se protegiam como podiam. Os dois foram enterrados logo depois de mortos, sem velório, em covas rasas, fora do cemitério e sem ataúde. Segundo relatos da época, na manhã seguinte o “Troncho” estava com os pés fora da cova e as botas haviam sido tiradas, estando jogadas ao lado. Depois se ficou sabendo que o mesmo costumava guardar o dinheiro no cano das botas. Alguém que sabia foi à noite e desenterrou apenas os pés e tirou às botas a procura do dinheiro.

Marino tinha o costume de dormir no forro da casa e puxar a escada para cima. Este costume ele teria trazido já da Itália. Algum tempo depois Marino foi colocar “bolicho” no ainda hoje conhecido “Pinga Fogo”, onde foi vizinhar com o compadre Lucídio Camargo, casado com a dona Rosinha, mãe do conhecido comerciante de Três de Maio, nas décadas de 60 e 70, Santo Calistro Camargo. Foi ali que um dia não se sentiu muito bem e foi ao hospital São Vicente, onde ficou sob os cuidados do Dr. Brutus Portinho Nessi. Na tarde seguinte, dia 19 de novembro de 1938, às 15 horas, teve provavelmente um enfarto do miocárdio e faleceu.  Velório grande, com foto do falecido dentro do ataúde. Contava com a idade de 65 anos.

O filhos Luís e Zafério foram morar em Passo Fundo, Bernardo em Porto Alegre, Glória em Caxias do Sul e Carlota em Tenente Portela.  Apenas duas filhas permaneceram residindo em Três de Maio. A filha mais velha, Eulália, casada, com Patrício Fin teve 14 filhos, sendo que quatro permaneceram em Três de Maio e os demais em sua maioria foram estudar em Porto Alegre, onde ainda residem. Já a outra filha que permaneceu em Três de Maio, Júlia, casada com Adão Vanin com dezessete anos de idade, tendo ficado viúva já aos 24 anos, teve durante o curto casamento quatro filhos. O três filhos homens de Júlia, foram residir em porto Alegre e a única que permaneceu em Três de maio foi a filha mais velha, Alzira, casada com Edvaldo Germano Fernando Trage. Esta descendente falecida aos 89 anos em 01 de maio de 2012, foi uma das principais informantes dos fatos aqui relatados, juntamente com a sua mãe Julia Vanin, falecida em 1980. Foram fatos contados e repetidos ao longo da vida. Também muitos dos relatos aqui destacados foram feitos ao longo da vida por Eulália Fin, viúva de Patrício Fin, a filha mais velha de Marino e Joaquina (comprovadamente uma das pioneiras de Três de Maio), falecida em 1979 e seus descendentes, filhos, noras e netos que ainda aqui residem.


Uma Famíla Marcada Por Desgraças

Joaquina, descendente da família de Carlos Wiebbeling, teve dois irmãos que eram músicos e haviam saído a cavalo com seus acordeões para animar um baile, assassinados por um vizinho por um conflito de divisas de terras. Avisados do ocorrido depois de se passar mais de um dia das mortes, foram até o local onde jaziam os corpos e os dois rapazes foram sepultados lá mesmo ao lado da picada, apenas a mãe de Joaquina, Gertrudes, retirou da cabeça o lenço e da cintura o avental que usava e cobriu respectivamente o rosto de cada um dos filhos para que não fosse jogada a terra diretamente sobre eles. Este fato aconteceu no interior de Estrela quando Joaquina era ainda criança. As pessoas daquela época conviviam com a morte e a impunidade de forma muito próxima, apesar disso, Joaquina, mesmo sendo ainda criança na época, nunca esqueceu este fato, muitas vezes relatado.

A primeira grande tragédia da família de Marino Geraldi depois que ele veio morar em Três de Maio, aconteceu em 12 de fevereiro de 1922, quando o filho Xavier, então um menino de 10 anos de idade, resolveu fritar bolinhos. A irmã Júlia com 17 anos, estava ocupada, cuidando do sobrinho mais velho e afilhado Luís Fim que era um bebê próximo de um ano de idade, filho de Eulália e Patrício Fin. Os demais familiares não se encontravam em casa. Xavier disse estar com fome e com vontade de comer bolinhos fritos. Como a irmã não podia fazer, pois estava cuidando o sobrinho no colo, ele mesmo pôs mãos a obra. Naquele tempo dona Joaquina guardava no mesmo armário, fermento e veneno (Arcênico segundo os relatos). Xavier teve a infelicidade de colocar na massa dos bolinhos o veneno ao invés do fermento. E foi fritando e comendo, feliz da vida, orgulhoso do que estava fazendo. Ao oferecer os bolinhos para a irmã, esta primeiro deu um pedacinho para o sobrinho, depois ao comer o resto do bolo, achou o gosto estranho e ruim. Cuspiu fora e tirou da boquinha do sobrinho Luís parte do bolinho que lhe havia dado.

---- Você colocou vidro moído nestes bolinhos! --- Teria dito.

Imediatamente Júlia foi até o armário e constatou o engano de Xavier.

---- Você colocou veneno nos bolinhos...

Choro desesperado de Xavier e de Júlia. Júlia jogou os bolinhos fora pela janela. As galinhas comeram e muitas morreram logo depois. Xavier começou a passar mal em seguida e morreu se contorcendo de dor e falta de ar em menos de uma hora. Foram socorridos por um moço que passava pela estrada a cavalo e percebeu o choro e os gemidos. Era Adão Vanin, um rapaz nascido em Marcelino Ramos e que viera para a região efetuar uma cobrança de dinheiro de um tal de Jango. Júlia e o sobrinho sobreviveram, mas passaram muito mal. Na época não consta que as vítimas do envenenamento tenham recebido algum atendimento médico. Quatro meses após, a morte de Xavier, Júlia se casava com Adão Vanin que, após receber a conta, fora a Marcelino Ramos entregar a importância recebida e voltara a Três de Maio tendo trabalhado com o comerciante Adão Jost, uma vez que trabalhava como celeiro, profissão muito requisitada e era alfabetizado (situação pouco comum naquela época). O mesmo passou então a ajudar o Sr. Adão nas anotações de compras de produtos e vendas de mercadorias aos colonos.

Outra tragédia com a família de Marino foi quando o filho Ancelmo que estava trabalhando na abertura de estradas em Palmeira das Missões faleceu, atingido acidentalmente, por um amigo com disparo de revólver. Na época a família foi avisada por um mensageiro vindo a cavalo e Marino e o filho Luís foram também a cavalo a Palmeira das Missões, assim que receberam o aviso e prepararam a viagem, tendo chegado somente quatro dias após o enterro de Ancelmo.  Como não conheciam ninguém e Palmeira das Missões gozava da fama de terra sem lei, após visitar o túmulo do falecido e rezar três terços junto a sepultura Marino e Luís pernoitaram no cemitério mesmo, pois acharam ser ali o lugar mais seguro, já que deveriam ter medo dos vivos e não dos mortos e naquela época nenhum vivente passava perto do cemitério, a noite na região de Palmeira. Joaquina usou luto fechado e fez jejum durante sete anos em favor da alma do filho, pois acreditava que o mesmo poderia ter morrido em pecado, uma vez que fora surpreendido pela morte inesperadamente.

            A outra tragédia com a família foi que um dos filhos do casal Marino e Joaquina, após o término de um namoro, caminhava pela estrada em uma noite de lua cheia e encontrou-se com um irmão da ex-namorada que andava a cavalo. Após uma breve discussão o ex-futuro cunhado passou a surrá-lo de rebenque. Então ele, como quase todas as pessoas na época, andava armado e sacou de um revólver com apenas uma bala no cilindro. Acertou o agressor com um tiro que lhe causou a morte. Naquela noite mesmo, temendo uma vingança ou uma prisão arbitrária, ele despediu-se da família empreendeu uma fuga para a região de Passo Fundo. Este filho não veio mais a Três de Maio até a prescrição do crime, apenas as notícias eram trocadas através das cartas que enviava para a família usando o nome de outra pessoa, um primo de dona Joaquina.

            Outra grande desgraça foi em 1928 com a morte aos vinte e oito anos do genro Adão Vanin, deixando viúva a esposa Júlia aos vinte e quatro anos e quatro filhos órfãos, sendo que a filha mais velha do casal, Alzira tinha seis anos e o filho mais moço, Orlando Vanin, vinte dias de vida. Naquela época não havia antibióticos e a mortalidade infantil rondava as crianças e a morte muitas vezes atingia as pessoas por motivos banais. Praticamente era uma vida sem assistência médica e sem a possibilidade dos modernos e eficientes medicamentos que temos hoje. Adão se criara em Marcelino Ramos e costumava, quando garoto, brincar em cima da ponte dos trilhos do trem que atravessa o rio Uruguai, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Um dia distraiu-se e quando percebeu estava no meio da ponte e o trem chegando. Durante a passagem do trem não poderia permanecer em cima da ponte (por falta de espaço: A ponte só tinha a largura do trem). Então correu o mais que pode e jogou-se no rio, mergulhando, tendo batido a cabeça logo atrás do ouvido direito (apófise mastoide) em uma pedra. Mesmo ferido e atordoado conseguiu nadar e salvar-se. O ferimento com remédios caseiros custou a sarar e ele em vários momentos sentia que o local lhe doía. A doença ia e vinha. No último ano a região do ferimento piorou muito. Ele montou em um cavalo com a cabeça enfaixada, estava magro, tinha dor de cabeça, febre, calafrios. Foi sozinho até Ijui, ficou lá dois meses, antes da cirurgia, mesmo doente, ajudou a cuidar outros doentes que também lá se encontravam, muitos deles também sozinhos, em busca de tratamento. Cuidou uma mulher que se operou antes dele e que depois retribuiu os cuidados. O médico optou por operá-lo. Tendo lhe colocado no nariz uma compressa de éter que o fez perder o sentido por alguns minutos, rapidamente fez o melhor que podia na época e no lugar. Removeu parte do osso e curetou o local, limpando com antissépticos. Sem analgésicos e sem antibióticos sofreu dores lancinantes nas primeiras horas e nos dias seguintes. Com o ferimento aberto e a cabeça enfaixada retornou para casa e foi definhando até morrer, lamentando deixar os filhos pequenos e a mulher sem amparo. Nesta época o casal morava em Tucunduva. No dia da morte de Adão, dona Joaquina mandou vir na mesma carroça com o caixão do falecido, a filha, os netos e quase toda a mudança para que a filha e os netos viessem residir em Três de Maio novamente, tendo mandado construir uma casinha próxima do “estradão”, onde hoje se localiza o moinho da Cotrimaio. Júlia, usou luto fechado durante sete anos pela morte do marido e nunca mais se casou, tendo criando os filhos com a ajuda da família, mas com grande dificuldade.

            A outra tragédia aconteceu com um neto do pioneiro, no dia 01 de janeiro de 1939, meses após a morte de Marino, no dia de uma festa da Igreja Católica. O Sr. Patricio Fin havia carneado um dos bois para a festa e mandou o filho, Francisco Paulo Fin para pegar a mula e o cavalo no potreiro para levar a carne na carroça.  O jovem de 13 anos levantou sonolento. Saiu esfregando os olhinhos de sono, como contava chorosa a mãe Eulália mesmo anos depois, pegou as cordas e foi até o potreiro. Como estivesse demorando muito além do normal, o Sr. Patrício e outros membros da família passaram a procurá-lo, sendo que primeiro encontraram a  mula com parte da corda rebentada. Foram encontrar o “Riquinho” como era carinhosamente chamado pelos irmãos e primos, com as roupas rasgadas, mortalmente ferido, atrás de um tronco de árvore, gemendo debilmente. A corda havia se enrolado em uma das mãos e a mula disparara arrastando o adolescente por um longo trecho, trajeto que ficou marcado de sangue, até que o corpo finalmente acabou batendo na árvore e ali se desprendeu da corda. Segundo o relato do irmão Severino fim a mula era muito caborteira e não se deixava pegar facilmente. Tinha que aproximar-se dela com a corda escondida em baixo do braço, dar-lhe umas espigas de milho e então rapidamente passar a corda no pescoço e deve ter sido isto que o jovem fez, porém a mula deve ter se assustado e disparado e como parte da corda estava em baixo do braço, acabou enrolando-se, sendo que o jovem foi então arrastado praticamente até a morte. A festa da igreja matriz foi suspensa e houve grande comoção em Três de Maio, tendo a encomendação e sepultamento sido acompanhado por um número grande de pessoas, uma vez que o Sr. Patrício Fim era uma pessoa muito  conhecida naquela época e o menino morrera trabalhando pela igreja. O Sr. Patrício Fin, cuja mãe era da família Dall Pisol (conhecidos produtores de vinho da serra gaúcha), seguiu uma tradição da família e produziu, durante muitos anos, um dos melhores vinhos da região e o primeiro lote sempre era destinado gratuitamente para o uso do padre Vicente Testani na celebração das missas e para o lazer.

           

            Local de Pouso de Viajantes

            A filha Júlia, após ficar viúva, ficou residindo em uma área de terra pertencente ao pai, próximo onde hoje se situa o moinho da Cotrimaio. Como residia próximo da estrada principal e pertinho da cidade, era muito comum na época que as pessoas ali pedissem pousada. A propriedade muito humilde possuía um “galpãozinho” onde os viajantes alojavam-se em cima da única cama ou mesmo no caso de mais pessoas em cima das espigas de milho ou da alfafa. Sempre se tinha em estoque alguma quantidade de trato para os animais dos visitantes. Diga-se de passagem, que não era costume se cobrar o pouso nem a alimentação das pessoas, apenas alguns viajantes colaboravam com o trato dos cavalos. Os filhos de dona Júlia achavam aquilo um absurdo. Era quase todo o dia aquela mesma função, mas ela impunha a sua vontade. Era um dever de cristã dar pousada e alimento aos viajantes. Os homens e os estranhos pousavam no galpão, as pessoas conhecidas ou mulheres com crianças muitas vezes eram convidadas a dormir na casa, mesmo esta sendo bem pequena.

            O Circo Passou por Três de Maio

            O lugar crescia e um dia apareceu um circo em Três de Maio. Não se pode precisar a data exata em que o fato aconteceu. Bernardo, um dos filhos do casal Geraldi, apesar das tragédias da família era um rapaz alegre, muito brincalhão, contador de anedotas e mentiras de caçador e fazedor de piruetas. Era o mais moço dos rapazes e estava perto dos vinte anos quando um circo passou por Três de Maio e ele para apreensão dos pais, foi embora acompanhando o circo. Virou o principal palhaço do circo. Fazia graça e aprendeu a dar cambalhotas. Com o circo viajou por todo o Brasil e segundo dizem teria ido até pela Argentina. Aos vinte e oito anos voltou para casa. Em sua mala o nariz de palhaço, o sapato comprido, a calça larga e a gravata colorida. Fez a festa para os sobrinhos que só tinham ouvido falar dele. Manteve-se um grande contador de causos e uma pessoa alegre até o fim da vida. Casou-se e constituiu família, indo morar em Cruzeiro, Santa Rosa, com casa de comércio. Depois montou um  atacado na Rua Voluntários da Pátria em Porto Alegre.

            Algumas considerações Sobre Joaquina Wiebeling Geraldi

O casamento de uma jovem de origem alemã com um italiano com hábitos, língua e cultura diferentes se fosse na Europa, estaria exposto a muitas dificuldades. Mas no Brasil daquela época, frente a realidade aqui presente, na verdade salientavam-se mais as semelhanças entre os imigrantes do que as possíveis diferenças. Mesmo descendendo de países diferentes da Europa Marino e Joaquina tinham mais coisas em comum entre si do que com as pessoas que aqui se encontravam. Os dois falavam bem o português. Joaquina aprendeu a falar o Italiano e a família Geraldi em casa se comunicava nesta língua. Na alimentação também predominava a culinária italiana sobre uma mistura de hábitos alimentares da comida brasileira, alemã e italiana.

Na religião os dois eram fervorosos frequentadores da igreja, sendo que rezavam o terço diariamente. O vizinho de terra ao lado, o Sr. Emílio Teche reclamava:

---- Vão menos a igreja e cuidem mais das vacas que sempre escapam e vão estragar as minhas roças.

E dona Joaquina comentava:

---- Parece castigo! Mas estas vacas fogem justamente no domingo de manhã, na hora da missa. Quando a gente volta para casa, lá estão elas  na roça do Teche. Que vergonha!

Joaquina era a “médica” da família. Era dela sempre a tomada de decisão de como tratar as doenças da família e até dos vizinhos. Ela é que tratava das lombrigas das crianças, dos piolhos, dos episódios febris, acompanhava de perto as parteiras das filhas, cuidava das picadas de aranhas e de cobras, reduzia e imobilizava as fraturas de braços e certa vez reimplantou os quatro dedinhos da filha Glória de dois aninhos que colocou subitamente a mão na frente do facão com que o irmão mais velho Bernardo cortava uma madeira. Os dedinhos foram decepados na altura das falangetas (últimas articulações dos dedos). Joaquina recolheu os dedinhos, lavou bem com água, identificou visualmente cada dedinho, colocou um por um sobre os respectivos cotos, envolveu com paninhos limpos (deve ter untado com banha), aproximou bem os cortes e imobilizou cada dedinho com caninhos de taquara especialmente adaptados para cada dedo. O dedo mindinho foi o último a ser localizado e demorou a ser recolocado no lugar (teria se passado mais de duas horas). O reimplante da pontinha deste dedo não deu certo. Mas diante da gravidade do ocorrido ficou uma sequela menor e Glória teve a estética e a função normal nos dedos indicador, médio e anelar.

A mulher de muita fibra Joaquina Filipina Wiebielin Geraldi faleceu no ano de 1955 na cidade de Caxias do Sul onde havia ido residir junto com a filha Glória e a neta Clara Fin.


            O Cotidiano da Família

Nas naqueles longínquos anos, 1920, 1930, rios com um metro de água eram atravessados a cavalo, sem medo. Às vezes o rio enchia com a chuva e o “passo” enchia. Julia Geraldi contava que nas idas a Tucunduva muitas vezes surpreendida pela chuva, mais de uma vez, percebeu o cavalo, nadando em determinados trechos da travessia do rio.

Para se ter uma ideia de como os viajantes viajavam tranquilos que até cochilavam montados, com o cavalo andando a “passito”. Certa vez Julia Geraldi Vanin saíu de madrugada de Tucunduva  a Três de Maio. E o irmão Luís saiu no sentido inverso pelo mesmo caminho, na mesma hora. Os viajantes dormindo sobre os cavalos andando, se cruzaram no único caminho e um não percebeu o encontro com o outro, sendo motivo de grande surpresa para os dois que encontraram num breve cochilo simultâneo a explicação para o fato.

Outra curiosidade refere-se a culinária da época. Uma maneira rápida de resolver o problema de fazer uma alimentação melhor para uma visita inesperada, além botar mais água no feijão, era atiçar os cachorros treinados em um galináceo no pátio, ou matar a tiros o bicho e assim servir uma carne fresca, uma vez que não existia refrigerador. Claro que sempre se podia recorrer a carne de porco frita, conservada no pote de barro com banha, ou ao salame ou o charque defumados, além de também poder se valer de inúmeros ovos mexidos fritos na banha juntamente com queijo e linguiça.

            A saúde das pessoas naquela época se pode fazer uma ideia do que acontecia. A tal de “morte de repente” era bastante frequente, e deixava as pessoas inseguras, pois imaginavam que se poderia morrer por qualquer bobagem. Morreu e não tinha nada, não estava doente, afirmavam, lamentando alguma bobagem que o falecido fizera. Como não se dosava colesterol, não se media pressão sanguínea, as pessoas enfartavam ou tinham acidentes vasculares e morriam rapidamente. As pessoas buscavam explicações para as mortes em coisas normais da vida. Tomou água gelada, recém tirada do poço (nem refrigerador existia) com o corpo quente e caiu morto, explicavam. A ignorância fazia com que muitas coisas fossem tabus: moça menstruada não tomava banho, nem lavava a cabeça! Não misturar certas frutas: Uva com melancia, melancia ou uva com leite, pêssego com leite. A tal de congestão era muito temida. Alimentar-se e tomar banho antes de esperar três horas era considerado perigosíssimo.

O que ocorria muito também, era a morte sem a mínima assistência médica ou farmacêutica. As pessoas com doenças malignas ou terminais eram como chamavam na época “desenganadas” e faleciam em casa sem analgésico para diminuir a dor, desidratadas, sem sedativos, enfim sem qualquer suporte para uma morte com um pouquinho de dignidade. Algumas pessoas com câncer de esôfago, quando o tumor obstruía totalmente a passagem de qualquer alimento e até mesmo de água, morriam de fome e sede, quando poderiam ainda ter vivido pelo menos mais alguns meses ainda. Pessoas com tumores abertos exalando um enorme mau cheiro eram cuidadas em casa com compressas das mais diversas. Quase todos os “moribundos” a única coisa que recebiam era o carinho e os cuidados dos familiares, mas que para os padrões de hoje, não possuíam, no entanto, nenhuma condição material e técnica para cuidar de seus doentes. Faziam o que podiam com toda a paciência e boa vontade.

Os mortos eram enterrados em covas com sete palmos de fundura e as primeiras porções de terra jogadas sobre o caixão produzia um barulho muito próprio que geralmente era acompanhado do choro intenso dos parentes e amigos.  Os católicos no sétimo dia de falecimento costumavam ir ao cemitério, família e amigos mais chegados para rezar o terço.

Outra coisa bastante comum naqueles tempos do início dos anos 1900, era que as pessoas nem relógio possuíam e as que possuíam, os aparelhos da época todos a corda, ou adiantavam ou atrasavam alguns minutos por dia, o que no fim de algumas semanas dava uma diferença de meia hora ou mais e não havia como ouvir rádio, ou outro recurso para acertar o relógio. A sorte é que a vida do interior não precisava muito de relógios e o que comandava tudo era o nascer e o por do sol que marcava o início e o fim das atividades de trabalho fora de casa. Um relógio biológico que ajudava muito era o tal de estômago, pois a fome vinha quase sempre a mesma hora.  Marino possuía um calendário com o nascer e por do sol no sul do Brasil, nos diversos meses do ano. Dizem alguns especialistas que se bem observado em dias de tempo bom este calendário permite acertar o relógio com uma margem de erro não muito superior a dez minutos. Em relação a questão do relógio, havia uma dúvida se a neta Alzira havia nascido dia 21 ou 22 de abril. O pai, Adão Vanin olhou o relógio de bolso e afirmou que o nascimento ocorrera as 11:45 da noite e que ela nascera no dia 21. Já dona Joaquina, a avó materna, grande observadora da natureza, saíu para fora de casa olhar a lua e afirmou que já passava da meia noite e que a neta com certeza nascera no dia 22. Apesar dos protestos de dona Joaquina, valeu a afirmação do pai e o aniversário era comemorado dia 21, porém a dúvida não deixou de ser relatada.


Final

Até agora a história dos primórdios de Três de Maio não mencionava a passagem por estas terras destes dois pioneiros, bravos desbravadores, gente de fé, luta e trabalho que deixaram uma descendência de filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos que hoje somam mais de quinhentas pessoas espalhadas por Três de Maio e pelo restante do Rio Grande do Sul, Brasil e até no exterior, nas mais diversas profissões (médicos, Juízes, advogados, cirurgiões-dentistas, delegados de polícia, oficiais das forças armadas, policiais, políticos, bancários, contadores, auditores, empresários, professores, comerciantes, agricultores, estudantes, etc.), levam ainda no DNA o espírito do trabalho, da honestidade, da espiritualidade, da justiça, da solidariedade e do amor, herdados deste valoroso casal que mesclado as não menos importantes contribuição de todas as outras pessoas que cruzaram na vida dos descentes, fazem deles as pessoas valorosas que são. Veja mais sobre a história de Três de Maio

Referências:
1- Comunicação verbal da neta de Marino, Maria Alzira Vanin Trage, do neto Pedro Geraldi Vanin, das filhas Julia Geraldi Vanin, Eulália Geraldi Fin e do filho Bernardo Geraldi aos familiares ao longo de suas vidas.
2- Alfarrábios da Família Vanin, VANIN, Osvaldo Geraldi . Coletânea de documentos e discursos do autor ao longo de mais de 80 anos.
3- Discursos do Procurador Geral do Estado do Rio Grande do Sul, Orlando Giraldi Vanin, como orador oficial nos festejos da semana da pátria de 1972 em Três de Maio.
4- Entrevista pessoal com o Dr. Severino Fin, concedida na data de 26 de julho de 2013.
 5-Títulos de Terras emitidos pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e os respectivos registros no Registro de Imóveis de Santa Rosa e Santo Ângelo.

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